Iniciar a transição de gênero é um marco importante na vida de uma pessoa. É o momento em que o corpo passa a refletir, de forma mais alinhada, a identidade de gênero. Ao mesmo tempo, surgem decisões que também impactam o futuro, entre elas a possibilidade de ter filhos biológicos.
Ainda existe o mito de que é preciso escolher entre iniciar a hormonização ou preservar a fertilidade. Felizmente, a medicina reprodutiva mostra que esses caminhos podem caminhar juntos. Com planejamento, é possível preservar óvulos ou espermatozoides antes da terapia hormonal, mantendo aberta a possibilidade de construir uma família biológica no futuro.
Neste artigo, você entenderá como a hormonização pode afetar a fertilidade, por que o momento ideal para a preservação é antes do início do tratamento hormonal e quais são as opções disponíveis para pessoas trans.
Como a hormonização pode afetar a fertilidade
A terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG) é um tratamento seguro, eficaz e fundamental para muitas pessoas trans. No entanto, ela pode causar alterações importantes na função reprodutiva.
Nos homens trans (pessoas designadas mulheres ao nascer que se identificam com o gênero masculino), o uso de testosterona costuma interromper a ovulação e o ciclo menstrual. Com o uso prolongado, pode haver redução da qualidade e da quantidade dos óvulos.
Já nas mulheres trans (pessoas designadas homens ao nascer que se identificam com o gênero feminino), o tratamento com estrogênio e medicamentos que bloqueiam a ação da testosterona (antiandrógenos) reduz significativamente a produção de espermatozoides. Estudos mostram que entre 50% e 70% das mulheres trans em terapia hormonal apresentam comprometimento importante da espermatogênese, podendo ocorrer infertilidade permanente em alguns casos.
Na prática, isso significa que quanto maior o tempo de hormonização antes da preservação dos gametas, menores podem ser as chances de obter material biológico com boa qualidade.
Por esse motivo, entidades como a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomendam que o aconselhamento sobre preservação da fertilidade faça parte da avaliação antes do início da terapia hormonal.
O melhor momento para preservar a fertilidade
A preservação da fertilidade não atrasa nem impede a transição de gênero. Pelo contrário, ela permite que o planejamento familiar seja incorporado à jornada de afirmação de gênero desde o início.
Para homens trans, o procedimento consiste na estimulação ovariana seguida da coleta e vitrificação dos óvulos. Todo o processo dura, em média, de 10 a 12 dias e, após a coleta, a terapia hormonal pode ser iniciada normalmente.
Para mulheres trans, o processo costuma ser ainda mais simples. A coleta do sêmen é realizada por masturbação e o material é criopreservado em laboratório, geralmente em poucos dias, sem necessidade de procedimentos invasivos.
Embora seja possível realizar a preservação após o início da hormonização, normalmente é necessário interromper temporariamente o tratamento hormonal para recuperar parcialmente a produção de gametas. Mesmo assim, não há garantia de recuperação da fertilidade, e a qualidade do material pode estar comprometida.
Por isso, a recomendação médica é clara: sempre que possível, a preservação deve ser realizada antes da hormonização.
Quais são as opções de preservação da fertilidade?
A criopreservação permite armazenar gametas em temperaturas inferiores a -196 °C, preservando sua viabilidade por muitos anos.
As principais opções são:
Congelamento de óvulos (vitrificação)
Indicado para homens trans que desejam preservar sua fertilidade antes da hormonização. Após a estimulação ovariana, os óvulos são coletados por punção guiada por ultrassonografia e armazenados em nitrogênio líquido. No futuro, poderão ser utilizados em tratamentos de fertilização in vitro (FIV).
Congelamento de sêmen
Recomendado para mulheres trans. A coleta é simples, rápida e não invasiva. Os espermatozoides congelados poderão ser utilizados futuramente em tratamentos como inseminação artificial ou fertilização in vitro.
Congelamento de embriões
Quando a pessoa já possui um parceiro ou parceira e ambos desejam formar uma família biológica, é possível realizar a fecundação antes da transição e congelar os embriões. Essa alternativa costuma apresentar altas taxas de sucesso reprodutivo.
A importância do acolhimento durante o planejamento reprodutivo
Decidir preservar ou não a fertilidade é uma escolha individual. Essa decisão envolve expectativas, projetos de vida, questões emocionais, financeiras e familiares.
Pesquisas realizadas pela Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP) mostram que cerca de 69% das pessoas trans receberam orientações sobre os impactos da hormonização na fertilidade. Ainda assim, mais da metade afirmou que não adiaria o início da terapia hormonal para realizar a preservação, evidenciando a importância de oferecer informação precoce e planejamento adequado.
Por isso, o acompanhamento deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar, capaz de oferecer acolhimento, orientação médica e suporte psicológico, respeitando a identidade, o tempo e os objetivos de cada pessoa.
Na Clínica Pluris, o cuidado é individualizado. A equipe acompanha cada paciente desde a primeira consulta, esclarecendo dúvidas sobre fertilidade, preservação de gametas e planejamento familiar de forma ética, inclusiva e humanizada.
Mitos sobre preservação da fertilidade na população trans
“Preservar minha fertilidade vai atrasar a transição.”
Não. A coleta de sêmen pode ser realizada em poucos dias, enquanto a coleta de óvulos costuma levar cerca de duas semanas. Após o procedimento, a hormonização pode ser iniciada conforme o planejamento médico.
“Só faz sentido preservar se eu tiver certeza de que quero filhos.”
Não é necessário tomar essa decisão agora. O congelamento de gametas preserva a possibilidade de escolha no futuro, quando seus planos de vida estiverem mais definidos.
“Depois que começo a hormonização, nunca mais poderei ter filhos biológicos.”
Nem sempre. Algumas pessoas recuperam parcialmente a fertilidade após interromper a terapia hormonal. No entanto, essa recuperação é imprevisível e pode não acontecer. Por isso, a preservação antes da hormonização continua sendo a alternativa mais segura.
Conclusão
A transição de gênero e o planejamento familiar não precisam ser escolhas excludentes. Preservar a fertilidade antes da hormonização é uma forma de ampliar as possibilidades para o futuro, permitindo que pessoas trans vivam sua identidade de maneira plena sem abrir mão da oportunidade de ter filhos biológicos, caso esse seja seu desejo.
A medicina reprodutiva oferece hoje recursos seguros, eficazes e cada vez mais acessíveis para tornar esse planejamento possível.
Se você está iniciando sua transição de gênero e deseja entender como preservar sua fertilidade, converse com uma equipe especializada. Na Clínica Pluris, oferecemos atendimento acolhedor, respeito à diversidade e um plano de cuidado personalizado para que você possa construir seu futuro com autonomia e segurança.


