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Outubro Rosa e a Saúde Trans Masculina: Um Chamado à Prevenção para Todos os Corpos
Imagem meramente ilustrativa (Banco de imagens: Shutterstock)
31/10/2025

Outubro é o mês que nos lembra da importância vital da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. No entanto, em meio às campanhas tradicionais do Outubro Rosa, um grupo essencial frequentemente se sente invisível: os homens trans.

A saúde é um direito de todos e a prevenção deve ser inclusiva. Para você, homem trans, é crucial saber: sua saúde importa, sua história é importante e seu corpo merece atenção e cuidado. Este artigo é um convite para desmistificar, informar e acolher você na jornada da prevenção.

Homens Trans e o Câncer de Mama: Mitos e Fatos

É comum a ideia de que o câncer de mama é uma “doença de mulher”, mas isso é um mito perigoso. É uma doença que afeta qualquer pessoa com tecido mamário.

O risco continua, mesmo com a transição:

  • Tecido Remanescente: Mesmo após a cirurgia de masculinização do tórax (mastectomia bilateral ou “top surgery”), uma pequena quantidade de tecido mamário pode permanecer. Esse tecido residual, ainda que mínimo, mantém um risco, por menor que seja, de desenvolver câncer.
  • Antes da Cirurgia: Homens trans que não realizaram a cirurgia possuem a mesma quantidade de tecido mamário que mulheres cisgênero e, portanto, o risco é o mesmo antes da transição hormonal.
  • Testosterona Não Zera o Risco: A terapia hormonal com testosterona reduz a quantidade de tecido glandular (o tecido que pode desenvolver câncer), podendo assim diminuir a probabilidade da doença, mas o câncer pode conter receptor para a testosterona e mesmo, a testosterona como é também um esteroide, pode ser transformada em estrogênio no tecido adiposo e desta maneira estimular as células cancerígenas . Portanto poder reduzir o risco não significa que irá eliminá-lo, podendo até aumentar esse risco em algumas situações.

Desmontando Mitos Comuns:

  • Mito: “Homens trans não pegam câncer de mama.” Falso. Qualquer pessoa com tecido mamário tem risco.
  • Mito: “A testosterona elimina o risco.” Falso. A terapia hormonal pode reduzir o risco, mas não o zera.
  • Mito: “Só preciso me preocupar se não tiver feito top surgery.” Falso. O risco existe antes e depois da cirurgia, embora possa ser alterado por ela.
    O câncer de mama em homens trans é menos frequente, mas não raro. O conhecimento é sua maior arma.

Testosterona e a Vigilância: O Cuidado Continua

A terapia com testosterona promove mudanças importantes no corpo, incluindo a atrofia (diminuição) do tecido glandular mamário. Isso pode diminuir as chances de a doença se desenvolver.
O tecido mamário, mesmo atrofiado, pode persistir, mantendo uma vulnerabilidade.
Portanto, a vigilância deve ser uma constante, adaptada à sua realidade:

  • Sem Mastectomia: A atenção deve ser redobrada, pois o tecido mamário permanece em sua totalidade.
  • Com Mastectomia: A pequena quantidade de tecido remanescente continua sendo um ponto de atenção.

A decisão sobre o seu acompanhamento deve ser individualizada e feita em conjunto com um médico que entenda de saúde trans.

Seu Histórico Familiar Importa

Conhecer o histórico de saúde de sua família biológica é um passo crucial na prevenção. Alguns tipos de câncer de mama estão ligados a mutações genéticas herdadas.

O que procurar na história da sua família biológica:

  • Casos de câncer de mama ou ovário antes dos 50 anos.
  • Múltiplos casos de câncer de mama.
  • Histórico de câncer de mama em homens (cis ou trans).

Se houver um histórico preocupante, o aconselhamento genético é uma ferramenta poderosa. Um especialista pode avaliar seu risco e recomendar testes genéticos e um plano de prevenção personalizado.

Prevenção e Diagnóstico Precoce: Suas Ferramentas de Cuidado

A chave para combater o câncer de mama é a detecção precoce. Para homens trans, isso significa adotar práticas de autocuidado e buscar exames regulares.

1. O Autoexame Mamário: Conhecendo Seu Corpo

O autoexame é simples e eficaz para identificar mudanças. Pode ser um momento delicado devido à disforia, então crie um ambiente seguro e acolhedor:
Escolha um momento tranquilo e privado.
Concentre-se na saúde e na prevenção.

Como fazer:
Observação: Em frente ao espelho, observe o tórax e as axilas, procurando alterações na pele (vermelhidão, inchaço) ou nos mamilos.

Palpação: Use as pontas dos dedos para palpar todo o tórax/região mamária em busca de nódulos (caroços), endurecimento, dor persistente ou secreção. Não se esqueça da axila.

2. Exames de Imagem

A necessidade de exames como mamografia e ultrassom depende de fatores como idade, histórico familiar e se você fez ou não a cirurgia de masculinização.

  • Alto Risco: Se você tem alto risco genético, a vigilância pode começar mais cedo e incluir Ressonância Magnética.
  • Pós-Cirurgia: Mesmo após a cirurgia, a mamografia ou o ultrassom podem ser necessários se houver tecido residual significativo ou um risco elevado.

Consulte um profissional de saúde trans-competente para decidir quais exames fazer e com que frequência, de forma individualizada.

3. Exame Clínico das Mamas

Uma consulta regular com um profissional de saúde deve incluir o exame clínico, onde o médico irá palpar seu tórax para verificar a presença de nódulos ou outras alterações. É rápido e fundamental.
Navegando o Sistema de Saúde: Seus Direitos

Buscar cuidados de saúde pode ser um desafio, especialmente devido à disforia de gênero ou ao medo de encontrar profissionais despreparados.

Você tem direitos e merece um cuidado respeitoso:

  • Respeito à Identidade: Você tem o direito de ser tratado pelo seu nome social e pelos pronomes de sua escolha.
  • Atendimento Livre de Discriminação: É seu direito receber um atendimento de qualidade, sem preconceitos.
  • Consentimento Informado: Todas as decisões sobre seu tratamento devem ser tomadas com seu consentimento, após você receber todas as informações.

Dicas para um Cuidado Digno:

  • Pesquise: Busque clínicas e profissionais que se identifiquem como LGBTQIA+ friendly ou que tenham experiência em saúde trans.
  • Comunique-se: Se sentir confortável, inicie a conversa sobre sua identidade de gênero e suas preocupações específicas. Por exemplo: “Olá, meu nome é [nome social], e sou um homem trans. Gostaria de discutir a prevenção do câncer de mama, levando em conta minha transição.”

Encontrar um profissional de saúde acolhedor e que valide sua identidade é o primeiro passo para garantir que você receba o cuidado que merece.

Seu Checklist Prático para a Saúde Mamária

Cuidar da sua saúde é um ato de coragem e amor-próprio. Siga estes passos:

  • Conheça seu corpo: Pratique o autoexame mamário regularmente em um ambiente seguro.
    Mergulhe no histórico familiar: Converse com seus familiares biológicos sobre casos de câncer na família.
  • Agende um check-up inclusivo: Busque um profissional de saúde que entenda as particularidades da saúde trans.
  • Pergunte sobre os exames: Discuta com seu médico a necessidade de mamografia, ultrassom ou ressonância magnética, considerando seu risco individual.
  • Mantenha um estilo de vida saudável: Dieta equilibrada, atividade física regular e evitar o tabagismo e o álcool em excesso são aliados na prevenção.
  • Busque apoio: Se a disforia ou ansiedade dificultam o cuidado, procure um psicólogo especializado em questões trans.

Conclusão: Você Não Está Sozinho

O Outubro Rosa é um lembrete de que a prevenção e o diagnóstico precoce salvam vidas. Estendemos esse lembrete a cada corpo, a cada identidade, sem exceção.

Homem trans, sua jornada é única e merece um cuidado que reflita isso. Não se sinta invisível. Escolha se cuidar. Escolha se informar. Sua saúde é um tesouro, e cuidar dela é um direito e uma responsabilidade.

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